Ainda não tirei carteira de motorista. Talvez esteja mal acostumada demais a ser levada de cá pra lá. Gosto da ideia de liberdade que um carro numa estrada sem rumo numa noite sem luz pode dar. Mas odeio a ideia de ficar presa em engarrafamentos dentro dos próprios estacionamentos, odeio a minha própria garagem, odeio motoristas que não dão seta. Quando paro no Rio, sinto verdadeira preguiça de ser independente. Mas a minha vida toda funciona bem mais a partir dos limites de município e, aí, fica difícil não desejar me livrar da 1001. É uma relação de amor e ódio construída ainda nas minhas primeiras fases freudianas. Minha relação com meus pais é bem resolvida. Com a 1001, nem tanto. Eles (os pais) se separaram quando eu tinha 3 anos e minha infância foi aquele clássico contemporâneo das visitas quinzenais. Meu pai também não gostava das despesas de manter um carro e sempre alugava, aos fins semana, para ir me buscar na escola, ao meio dia de sexta-feira. Nos outros dias da semana, eu sempre tive padrasto ou motorista. Raramente via minha mãe no horário de almoço, a não ser que eu fosse até a sala dela, na Defensoria. Mas eu preferia voltar para o sítio e só pensar em sair de lá de novo para a aula do dia seguinte. Minha vizinha era a minha melhor amiga e, por muito tempo, eu não senti falta de mais vida social do que a do jardim.
Assim que fiz doze anos, os caras das rodoviárias confirmaram os anseios do meu pai e deixaram que eu viajasse sozinha. Desde então, bato ponto nesses cenários peculiares regularmente. Além de ir para a pequena e pacata cidade dele, na divisa com Minas, logo comecei a fazer outras viagens curtas para cidades do mesmo estado, raras vezes para SP e não tive medo de alguns mochilões no Nordeste dependendo desses transportes. Em Friburgo, são duas: sul e norte. Em Minas, pode ser Pirapetinga, Além Paraíba ou Caiapó, depende da hora. No Rio, depende do dia, pode ser Castelo e desde pequena eu me orgulho de achar que manjo muito das independências geográficas. Aos 18, desci de vez a serra. Arrumei uma casa a vinte minutos a pé da faculdade, dos futuros estágios e a dois lances de escada da praia e do bar. Demorei bastante a saber os conceitos de 432, 435, 410, 539, integração… Só depois que vim para Copacabana é que conquistei mais essa relação sensacional que somente o Rio nos proporciona: os motoristas. Eu gosto de quem dirige rápido e loucamente. Só não gosto dos nossos estresses somados quando a rua está parada. Para o outro lado, ando de metrô. Sem querer, imito a voz da Fernanda Abreu a cada estação, que sempre soube de cabeça e, assim que criaram novas, tratei de decorar também.
Me acostumei tanto a pensar no tempo passando em ritmo de taxímetro que, quando um brother me dá carona, meu ímpeto quando chega a minha rua é pegar a carteira e não de me despedir. Só mesmo aos fins de semana é que eu sinto falta de viajar com os pés descalços, no para-brisa. Sinto falta quando o sítio parece tão longe, quando o delivery demora, quando a estrada está ruim e só eu acho que “super rola de passar”. Sinto falta quando quero fugir de casa por algumas horas e só penso em trânsito até o limite da cidade e no trânsito de volta, quando eu não quiser mais fugir e, sim, voltar a dormir. Bicho do mato eu acho que sempre vou ser, porque é um mato muito bom de se voltar. O Rio é legal, mas uma vida só de Dois Irmãos é impraticável. Gosto daqui, mas minha aba da 1001 nunca fecha. Mas às vezes dá lugar à Útil, Itapemirim, Costa Verde, Gol, Tam, Avianca… É que eu tendo a ter um lugar de origem passageiro.