Julia Bender

Julia morou a vida inteira em Petrópolis e se mudou para o Rio de Janeiro para estudar Comunicação Social na Puc-Rio. Com o depoimento dela, vamos começar a entender melhor o significado do “interior”. Será que sua cidade natal é longe o suficiente para causar algum choque cultural?

Vamos ao texto:

Petrópolis é uma cidade pequena?

Petrópolis é um lugar único. A arquitetura alemã, o clima europeu… Tão perto do Rio e, ao mesmo tempo, tão diferente. Não é à toa que Petrópolis foi a cidade que encantou a família imperial. Só que Petrópolis também é uma cidade pequena: não pelas mais de 400 escolas, ou mais de 100 estabelecimentos de saúde, e sim porque os habitantes da “cidade de Pedro” têm uma tendência a achar que o mundo é aquilo ali.

A qualidade de vida é tão boa, que eles preferem se fechar nesse pequeno pedaço de terra, onde quase tudo dá certo. E aí, as pessoas que aparecem com uma ideia muito diferente, naturalmente, acabam migrando para lugares maiores. Em Petrópolis, um restaurante com sobremesas que piscam, por exemplo, não sobrevive por muito tempo. É que nós estamos acostumados com sobremesas que não piscam. No início, as pessoas compram a ideia e parece que o negócio vai engatar… Mas a verdade é que não há espaço para sobremesas que piscam. Na escola, a mesma coisa. Eu me lembro que um menino, uma vez, teve a grande ideia de vender bunda de chocolate. Sensacional! A escola inteira queria “comer a bunda do João”. Só que, imediatamente, a direção proibiu a venda. E assim era com tudo.

Eu estudei em um dos melhores colégios de Petrópolis e, mesmo assim, não tive quase nenhum acesso a atividades extracurriculares, debates, ou qualquer coisa que saísse do “padrão” acadêmico. Eu busquei essas coisas fora da escola: estudei música, teatro, dança… Mas a maioria dos meus amigos, não. Foi quando resolvi fazer um ano de intercâmbio nos EUA que eu percebi que Petrópolis havia ficado pequeno demais. Existe uma comodidade que é natural em cidades pequenas. Viver em Petrópolis é viver “sem emoção”. E não tem nada de errado nisso. Só que eu nunca me contentei com pouco. Eu precisei sair para ver coisa nova, movimento, gente que pensa grande também, que estudou música, teatro, dança… A lógica é mais ou menos essa: você pode seguir um caminho seguro, ou pode arriscar. Se o seu perfil tem mais a ver com a segunda opção, é melhor tentar a vida na cidade grande. Lugares pequenos são para mentes pequenas. Às vezes eu me pergunto se sou mais feliz do que meus amigos da escola porque eu saí, e eles ficaram. Talvez não. Mas eu sei que em Petrópolis jamais me sentiria realizada. Ainda assim, se tem uma coisa da qual eu não abro mão, é subir a serra aos finais de semana. É como voltar para casa. Encontrar os amigos da escola é uma delícia também, mas já vivemos realidades muito diferentes…

Pode até ser que em algum momento eu queira viver “sem emoção”. Mas se esse dia chegar, eu já vou ter visto e vivido de tudo. Já vou ter chegado no meu limite, com a prova do quanto sou capaz de conquistar. Aí sim, eu posso voltar.

Créditos

Músicas: “Dreas 7″ por Tonality Star

Vídeo: “The Forest of Dean – Time-Lapse 03″ por Michael Arnison

2 comentários sobre “Julia Bender

  1. Sei lá, essa coisa de rotular as pessoas que gostam de cidades pequenas de ”mentes pequenas” é meio boba, Eu morei em cidade grande por alguns meses e não gostei. Prefiro um lugar no qual eu me sinta confortável e feliz – e eu acho que ISSO é pensar grande.

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  2. Julia, Muito interessante as suas analises e comparações, gostei muito.

    Quem cresceu em Petropolis (ou cidades medias com boa qualidade de vida) sempre tem esse dilema entre continuar a viver em Petropolis ou sair da cidade para buscar algo ‘diferente’. É uma escolha sempre complicada porque se pode ganhar muito em outros lugares (em aspectos culturais, vivencia de mundo e os salarios e as ofertas de trabalho são maiores e mais frequentes em centros urbanos como o RJ). Entretanto, ‘voltar’ a Petropolis sempre dá uma sensação de volta a casa, segurança e boa qualidade de vida perto da familia.

    Parabéns pelas experiencias e ideias expostas aqui. um abraço!

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